Do dado à decisão auditável

Dados e ferramentas para pesquisa e decisão

Informática em Saúde Aplicada à Enfermagem

Encontro 2 de 6 · Presencial · 4 horas

A turma pediu concretude — sem trilha única

Demandas relatadas

organização de dados · REDCap · SPSS · Power BI · Zotero · formulários · indicadores

Decisão de desenho

núcleo comum + trilhas coleta · organização/análise · visualização · referências/arquivos

A ferramenta muda. Os critérios de qualidade permanecem.

Os dados estão no prontuário. A decisão continua difícil.

Proposta pedagógica: Caso Marcos

Marcos, 68 anos, apresenta sinais de possível deterioração. A enfermeira Lívia encontra sinais vitais em uma aba, balanço hídrico em outra, notas repetidas e alertas já conhecidos. A tendência respiratória não está visível.

O problema é falta de dado — ou dificuldade para transformar dado em situação clínica?

Enquete: onde o prontuário pesa?

Proposta pedagógica: escolha a alternativa mais próxima da sua experiência.

  1. encontrar a informação;
  2. registrar o mesmo dado mais de uma vez;
  3. interpretar tendências;
  4. responder a alertas;
  5. entender quem usa o que foi registrado.

Complete: “O prontuário ajuda quando ; atrapalha quando .”

O que devemos conseguir fazer hoje?

Proposta pedagógica: objetivos de aprendizagem

  • desenhar um fluxo da coleta ao uso, com qualidade, acesso, versão, documentação e proteção;
  • selecionar a trilha prática coerente com a necessidade do projeto;
  • construir um artefato mínimo de coleta, organização/análise, visualização ou referências/arquivos;
  • testar se outra pessoa consegue compreender e usar o artefato.

Percurso em 240 minutos

Movimento Tempo Estratégia
Problema comum 20 min autópsia de um fluxo frágil
Núcleo comum 100 min ciclo, qualidade, proteção e demonstrações
Intervalo 10 min pausa
Clínica em trilhas 70 min construir artefato mínimo
Teste e crítica 30 min uso por colega e revisão
Fechamento 10 min plano de dados e conexão

A tese do encontro

Uma ferramenta não corrige dados sem finalidade, estrutura, significado e responsável.

O EHR será nosso primeiro laboratório; o projeto de doutorado será o campo de transferência.

Quatro trilhas, os mesmos critérios

Trilha Artefato mínimo Pergunta de teste
coleta formulário ou especificação REDCap a resposta gera dado utilizável?
organização/análise dicionário + planilha auditável outra pessoa entende e reproduz?
visualização indicador + wireframe de dashboard a visualização apoia uma decisão?
referências/arquivos estrutura + versões + biblioteca a fonte correta pode ser recuperada?

Finalidade · metadados · qualidade · acesso · proteção · teste

EHR: registro longitudinal e sistema de trabalho

O EHR reúne informação de saúde produzida em encontros de cuidado e pode apoiar:

documentação · workflow · decisão · qualidade · resultados

A definição funcional já ultrapassa a ideia de “arquivo digital”.

Um ecossistema, não uma tela

EHR como ecossistema de infraestrutura, módulos, dados, interface, regras, pessoas, papéis, workflow, comunicação, cultura, governança e monitoramento

Diagrama autoral, CC BY 4.0. Síntese baseada no modelo sociotécnico (Sittig e Singh 2010).

Duas maneiras de explicar o mesmo problema

Visão simplificada Visão sociotécnica
EHR como software EHR como sistema de trabalho
usuário executa profissionais adaptam o trabalho
erro individual interação de múltiplos elementos
implantação termina uso exige monitoramento contínuo
funcionalidade = sucesso valor e uso seguro = sucesso

Workaround: adaptação que revela tensão

Proposta pedagógica: Lívia anota valores em papel para comparar tendências e depois retorna ao EHR para registrar.

O atalho pode manter o trabalho possível, mas também criar duplicação, atraso ou perda de rastreabilidade.

Pergunta: o workaround é “resistência do usuário” ou diagnóstico do sistema?

Mapeie uma interação em 90 segundos

Proposta pedagógica: em trio, complete:

“Quando o sistema exige , a equipe adapta ; isso pode melhorar ___ e criar risco de ___.”

Documentar para quê?

Aplicações de documentação clínica registram, gerenciam e reportam atividades de cuidado.

Podem apoiar:

comunicação · responsabilidade profissional · workflow · gestão do cuidado · relatórios clínicos, administrativos e de pesquisa (Asmirajanti et al. 2019)

Um campo, muitos destinatários

Proposta pedagógica: escolha um campo registrado rotineiramente.

Pergunta Resposta do grupo
Quem registra?
Quem reutiliza?
Em que momento?
Para qual decisão?
Que consequência é observada?

Do registro ao valor

Fluxo entre registro, destinatário, interpretação, decisão e valor; ausência de destinatário, contexto ou reutilização pode produzir carga

Diagrama autoral, CC BY 4.0. Síntese didática, não modelo validado.

Estruturar ajuda — mas pode empobrecer

Campos estruturados favorecem padronização, recuperação, gráficos e relatórios.

Também podem:

  • deslocar a narrativa clínica;
  • induzir “normal” sem validação;
  • tornar o registro compatível com o sistema, mas não com a situação.

“Note bloat”: mais texto, menos legibilidade

Facilidade para copiar, colar e inserir resultados pode produzir notas volumosas e difíceis de revisar.

O problema não é apenas tamanho: é encontrar o que mudou, quem afirmou e o que exige ação.

Minuto de crítica documental

Proposta pedagógica: classifique um registro do seu contexto.

manter produz valor observável
integrar útil, mas duplicado ou fragmentado
investigar finalidade ou destinatário incerto
remover? somente após avaliar risco e exigências

Carga documental não é apenas tempo

Ela pode envolver:

volume · redundância · fragmentação · interrupções · retrabalho · baixa reutilização · desalinhamento com o workflow

Uma síntese visual da carga

Seis dimensões conectadas à carga documental: volume e tempo, redundância, fragmentação, interrupções, baixa reutilização e desalinhamento com o trabalho real

Diagrama autoral, CC BY 4.0. Não constitui equação validada.

Quatro conceitos que não são equivalentes

Conceito Pergunta
quantidade quanto foi registrado?
qualidade é correto, completo e interpretável?
esforço que trabalho foi necessário?
valor que comunicação, decisão ou responsabilidade apoiou?

Mais documentação pode aumentar esforço sem aumentar valor.

Quando documentar compete com pensar

Interfaces com muitos passos, telas congestionadas e navegação difícil aumentam demanda mental.

Sobrecarga de informação ocorre quando a quantidade apresentada excede capacidade atencional, perceptual e cognitiva, favorecendo erros de processamento. (Padden 2019; Sweller 1988)

Burden é problema de desenho e organização

EHRs podem contribuir para frustração, trabalho prolongado e burnout; reduzir a contribuição exige agir sobre documentação, entrada de dados e tarefas desnecessárias. (Dymek et al. 2020)

Não extrapolaremos números de estudos médicos para a Enfermagem. O problema será analisado por mecanismos e contexto.

Classifique o problema, não a pessoa

Proposta pedagógica: o que explica melhor a dificuldade de Lívia?

volume redundância fragmentação interrupção baixa utilidade desalinhamento

Escolha duas categorias e descreva a interação entre elas.

Usabilidade: a tarefa pode ser realizada?

Usabilidade investiga se pessoas conseguem usar um sistema com:

efetividade · eficiência · capacidade de aprender · prevenção/recuperação de erro · satisfação

no contexto da tarefa.

Usabilidade clínica acrescenta risco e contexto

Uma interface pode conter todos os dados e ainda dificultar:

  • localizar prioridade;
  • comparar tendências;
  • reconhecer ausência;
  • recuperar-se de erro;
  • coordenar entendimento na equipe.

Duas telas, dois trabalhos cognitivos

Comparação entre interface fragmentada em múltiplas abas e painel integrado que mostra tendência, dado ausente e próxima ação

Interfaces fictícias e diagrama autoral, CC BY 4.0.

Modelo mental: “como penso” versus “como o sistema exige”

Um modelo mental orienta expectativas sobre:

onde procurar · que ação executar · que retorno esperar

Quando sistema e tarefa divergem, o profissional precisa traduzir continuamente entre dois modelos.

A interface participa do raciocínio

Ela influencia:

o que chama atenção · o que pode ser comparado · o que precisa ser memorizado · o que a equipe compartilha

Problemas de interação não devem ser atribuídos automaticamente ao usuário.

Minuto de comparação

Proposta pedagógica: em dupla, escolha uma tela e responda:

  1. O que ela torna imediatamente visível?
  2. O que obriga o usuário a lembrar?
  3. Que hipótese pode ficar menos provável?
  4. Que erro deve permitir recuperar?

CDS: apoio, não substituição automática

Clinical decision support combina dados e conhecimento para produzir informação ou recomendação destinada à decisão.

O usuário continua avaliando se e como agir. (Sutton et al. 2020)

Fadiga de alertas: interrupção sem valor

Alertas tendem a ser ignorados quando:

  • disparam em excesso;
  • não são relevantes;
  • aparecem no momento inadequado;
  • não oferecem ação clinicamente possível.

Um alerta precisa merecer a interrupção

Funil que filtra alertas detectados por relevância clínica, prioridade, oportunidade e acionabilidade, seguido por monitoramento

Diagrama autoral, CC BY 4.0. Síntese baseada nas fontes locais.

Baixa aceitação não prova erro profissional

Uma taxa baixa de resposta pode indicar:

irrelevância · repetição · baixa especificidade · momento inadequado · informação conhecida · ausência de ação viável

O indicador precisa ser interpretado com adequação clínica e consequências.

Redesenhe um alerta em quatro perguntas

Proposta pedagógica: pense–duplique–compartilhe.

  1. Por que este paciente?
  2. Por que agora?
  3. Que dado ou incerteza sustenta o alerta?
  4. Que resposta é possível — inclusive justificar não agir?

Avaliar começa pela pergunta

Matriz visual que associa observação contextual, percurso cognitivo, avaliação heurística, think-aloud, teste de cenário e avaliação pós-implantação a perguntas específicas

Diagrama autoral, CC BY 4.0. Síntese de métodos descritos nas fontes locais.

Think-aloud: ouvir a interpretação em curso

O participante verbaliza o que pensa enquanto executa tarefas definidas; o avaliador observa e registra ações.

Ajuda a revelar: expectativa, ambiguidade, estratégia, ponto de hesitação e erro.

Métrica sem tarefa é número sem interpretação

Para um cenário definido, combine:

sucesso da tarefa · erros · passos · tempo · recuperação · experiência do usuário

Depois pergunte: o fluxo e o cuidado melhoraram?

Escolha o método

Proposta pedagógica: qual método responde melhor?

  • “Por que a equipe cria planilha paralela?”
  • “O botão de escalonamento é reconhecido?”
  • “A tarefa termina sem omitir dado crítico?”
  • “O redesign alterou comunicação após implantação?”

Clínica de dados: missão

Proposta pedagógica: planejar o ciclo de um dado do projeto e construir um artefato mínimo em uma das quatro trilhas.

O produto deve ser compreensível, verificável e testável por outra pessoa.

Grupos, papéis e materiais

Proposta pedagógica:

  • duplas ou trios por trilha;
  • papéis: autor, usuário-teste e guardião da qualidade;
  • materiais: plano de dados, modelo do artefato, conjunto fictício e cronômetro;
  • ferramentas opcionais: Forms/REDCap, planilha/Jamovi/SPSS, Power BI ou Zotero;
  • sempre oferecer alternativa em papel ou arquivo local.

Plano de dados em uma página

Antes da ferramenta

  • finalidade e decisão;
  • fonte e responsável;
  • unidade e estrutura;
  • valores permitidos e ausências.

Antes do uso

  • versão e transformação;
  • acesso e proteção;
  • verificação de qualidade;
  • análise, visualização e preservação.

Etapas em 70 minutos

Etapa Tempo Produto
finalidade, usuário e decisão 10′ enquadramento
ciclo, estrutura e qualidade 15′ plano de dados
escolha justificada de trilha 5′ ferramenta e limite
construção do artefato mínimo 20′ versão 1
teste sem explicação oral 10′ dúvida, erro e melhoria
revisão e registro 10′ versão 2 + decisão

Perguntas que o artefato precisa responder

Proposta pedagógica:

  • Que decisão, análise ou ação será apoiada?
  • Quem cria, altera, acessa e interpreta?
  • Como o significado e a versão ficam visíveis?
  • Que ausência, duplicidade ou valor inválido pode ocorrer?
  • Que transformação precisa ser reproduzível?
  • Que dado não pode ser inserido ou compartilhado?
  • Como saberemos se o artefato funciona?

Critérios de qualidade

Proposta pedagógica:

  1. finalidade e usuário estão claros;
  2. estrutura e metadados permitem compreensão;
  3. qualidade e valores ausentes são tratados;
  4. acesso e proteção estão explícitos;
  5. transformação ou cálculo pode ser rastreado;
  6. o teste produziu uma revisão concreta;
  7. limitações e alternativa de ferramenta foram reconhecidas.

Apresentar para tornar o dado auditável

Proposta pedagógica: 5–7 minutos por grupo

finalidade → dado → estrutura → ferramenta → teste → revisão

Entregável: plano de dados, artefato mínimo, resultado do teste e uma questão aberta.

Ficha de crítica entre pares

Proposta pedagógica: o grupo debatedor responde:

  1. O significado pode ser recuperado sem explicação oral?
  2. Qual erro ou perda de versão ainda é provável?
  3. Que proteção, validação ou documentação falta?

Devolutiva: compreendi · hesitei · recomendo testar.

O artefato, depois do teste

Proposta pedagógica: o autor acreditava que nomes, códigos e versão estavam claros. O usuário-teste interpretou uma variável de outro modo e não encontrou quem poderia corrigir o registro.

O que precisa mudar no dado, na documentação ou na ferramenta?

Dado, ferramenta e decisão formam um ciclo

finalidade → coleta → estrutura → verificação → uso → decisão → revisão

O fluxo deve continuar compreensível quando mudam pessoa, arquivo, sistema ou versão.

Três mensagens essenciais

1 · Finalidade antes da ferramenta
O dado precisa servir a uma decisão ou análise.
2 · Significado precisa viajar
Estrutura, versão e responsável devem ficar visíveis.
3 · Teste revela fragilidade
Outra pessoa precisa compreender e reproduzir.

Minuto de síntese

Proposta pedagógica: registre três frases.

  • Eu mantive: uma convicção que se fortaleceu.
  • Eu revisei: uma explicação que ficou insuficiente.
  • Eu vou documentar: um significado, uma versão e um responsável no meu projeto.

Leituras para aprofundamento

EHR, trabalho e burden
(Dymek et al. 2020; Sinsky et al. 2016; Swietlik e Sengstack 2020; Padden 2019)

Enfermagem e documentação
(Asmirajanti et al. 2019; Joseph et al. 2020)

Usabilidade, segurança e CDS
(Ratwani et al. 2018; Sittig e Singh 2010; Sutton et al. 2020)

Referências

Asmirajanti, Mira, Achir Yani S. Hamid, e Rr. Tutik Sri Hariyati. 2019. “Nursing Care Activities Based on Documentation”. BMC Nursing 18 (32): 1–5. https://doi.org/10.1186/s12912-019-0352-0.
Dymek, Cynthia, Bomi Kim, Genevieve B. Melton, Thomas H. Payne, Hardeep Singh, e Chun-Ju Hsiao. 2020. “Building the Evidence-Base to Reduce Electronic Health Record-Related Clinician Burden”. Journal of the American Medical Informatics Association, publicação prévia em linha. https://doi.org/10.1093/jamia/ocaa238.
Joseph, Jasna, Zena Moore, Declan Patton, Tom O’Connor, e Linda Nugent. 2020. “The Impact of Implementing Speech Recognition Technology on the Accuracy and Efficiency of Clinical Documentation by Nurses: A Systematic Review”. Journal of Clinical Nursing 29 (13-14): 2125–37. https://doi.org/10.1111/jocn.15261.
Padden, J. 2019. “Documentation Burden and Cognitive Burden: How Much Is Too Much Information?” CIN: Computers, Informatics, Nursing 37 (2): 60–61.
Ratwani, Raj M., Erica Savage, Amanda Will, et al. 2018. “A usability and safety analysis of electronic health records: A multi-center study”. Journal of the American Medical Informatics Association 25 (9): 1197–201. https://doi.org/10.1093/jamia/ocy088.
Sinsky, Christine, Li Colligan, Ling Li, et al. 2016. “Allocation of physician time in ambulatory practice: A time and motion study in 4 specialties”. Annals of Internal Medicine 165 (11): 753–60. https://doi.org/10.7326/M16-0961.
Sittig, Dean F., e Hardeep Singh. 2010. “A New Sociotechnical Model for Studying Health Information Technology in Complex Adaptive Healthcare Systems”. Quality and Safety in Health Care 19 (Suppl 3): i68–74. https://doi.org/10.1136/qshc.2010.042085.
Sutton, Reed T., David Pincock, Daniel C. Baumgart, Daniel C. Sadowski, Richard N. Fedorak, e Karen I. Kroeker. 2020. “An Overview of Clinical Decision Support Systems: Benefits, Risks, and Strategies for Success”. npj Digital Medicine 3 (17): 1–10. https://doi.org/10.1038/s41746-020-0221-y.
Sweller, John. 1988. “Cognitive Load During Problem Solving: Effects on Learning”. Cognitive Science 12: 257–85.
Swietlik, M., e P. Sengstack. 2020. “An Evaluation of Nursing Admission Assessment Documentation to Identify Opportunities for Burden Reduction”. Journal of Informatics Nursing 5 (3): 6–11.